O Som da Gradiente

19 de jun. de 2025

Nos últimos meses, tenho pensado muito sobre a vida e a morte. Perdi pessoas em vida e para a morte.


Sempre fui solitária. Aquela criança que brincava com livros e com o que estivesse ao alcance. Não me encaixava, mas cresci. Cá estamos nós. De alguma forma, homens como eles me enxergaram, viram em mim algum talento, alguma qualidade. Perdê-los também foi reviver a morte do meu avô, a pessoa que mais amei na vida.


Acho que, pela primeira vez, a solidão me incomodou. Senti medo de morrer sozinha e doente. Com eles, tive conforto, companhia e pude ser eu mesma de forma plena. Pensar que nunca mais teria isso foi muito duro, e ainda é. Eu não precisava me ajustar para caber, apenas ser eu mesma e ter a sua companhia.


É possível que eu esteja bastante saudosa, ou talvez seja apenas saudade. Não sei. Tudo isso me faz pensar na vida. Perdi pessoas, mas sigo ganhando a mim mesma.


Olho para o som da Gradiente na minha sala, com as caixas que ainda não arrumei, e lembro-me dos sábados com churrasco. Lembro-me de ficar sentada na sala ouvindo samba no vinil, Raça Negra na fita com o Francisco, e de acompanhar o jogo do Galo no rádio ou na TV. Ele e o futebol estavam sempre presentes. Eu andava um monte para ir até o seu bairro, pegava os atalhos que ele me ensinou, só para o ver jogar na lateral direita, no campo de terrão.


Que fita... E que saudade.


Toda vez que passo por uma festa junina ou tomo quentão, lembro-me do Ferreira me chamando de "negona", das cartas, da cachaça e de seu abraço.