Sem título, ainda…

Há quem acorde com o sol, dócil e manso,

Mas tu acordas tarde, contra a manhã que insiste,

Como quem recusa o mundo até que ele mereça

A tua presença inteira, tua chama que persiste.

Brilhante como quem carrega todas as estrelas,

Política em cada gesto, poesia em cada veia,

Entre fumaças de cigarro e xícaras sem fim,

Tua intensidade arde e a mim, que também ardo, incendeia.

Vi-te chorar com o filme de nossas vidas espelhadas,

O filho de mil homens, as famílias que escolhemos,

O amor que não cabe nas caixas que nos deram,

E entendi, somos todos os que fomos e seremos.

És mansa apenas quando o mundo não merece tua pressa,

Sensível como quem sente tudo e se recusa a fingir,

Escreves versos porque existir não basta,

É preciso transfigurar, é preciso resistir.

Que sorte a minha, nesta transição de rumos,

Ter encontrado quem queima como eu queimo,

Bebendo café, fumando sonhos, dividindo o cinema

Duas almas, duas revoltas, o mesmo poema