Há quem acorde com o sol, dócil e manso,
Mas tu acordas tarde, contra a manhã que insiste,
Como quem recusa o mundo até que ele mereça
A tua presença inteira, tua chama que persiste.
Brilhante como quem carrega todas as estrelas,
Política em cada gesto, poesia em cada veia,
Entre fumaças de cigarro e xícaras sem fim,
Tua intensidade arde e a mim, que também ardo, incendeia.
Vi-te chorar com o filme de nossas vidas espelhadas,
O filho de mil homens, as famílias que escolhemos,
O amor que não cabe nas caixas que nos deram,
E entendi, somos todos os que fomos e seremos.
És mansa apenas quando o mundo não merece tua pressa,
Sensível como quem sente tudo e se recusa a fingir,
Escreves versos porque existir não basta,
É preciso transfigurar, é preciso resistir.
Que sorte a minha, nesta transição de rumos,
Ter encontrado quem queima como eu queimo,
Bebendo café, fumando sonhos, dividindo o cinema
Duas almas, duas revoltas, o mesmo poema