O Amor dos Infelizes

25 de nov. de 2025

O amor dos infelizes


O amor estraga tudo, disseram-me

E eu disse: o amor é a espera do cultivo das lembranças


Somos resultado de tanta gente

Tanta espera

Tanta fantasia inócua

Tantos grandes sonhos

E de nós mesmas


Eu pensava que era frágil e imprestável como as flores

Pensava que todos eram iguais

E descobri que a diferença é coisa das mulheres

E mulheres gostam de flores

E um dia as recebi também


Use-as nos cabelos e sorria


O amor curou as minhas memórias mais sombrias

Apaziguou muitas feridas profundas

E ele passou a me acompanhar

A cada passo que eu dava estava lá


O amor estraga tudo ou é espera?


Encontrei os quase felizes e descobri

Que o amor era um inusitado entusiasmo capaz de mudar o mundo


Me acompanhava e sorria

O amor estava ali, não precisava mais procurar

Era agora uma parte infinita de mim

Não precisava mais curar feridas


Nas flores, nas lágrimas de Deus, nas espadas

No cuidado de um toque de alguém

Que sentia o verdadeiro lado de cá

Desejava e movia-se pela rodovia Sorocabana


E se eu tivesse metade dos olhos

Metade do peito, das pernas

E das palavras para explicar as pessoas

Ainda amaria


Amaria a mesa ajeitada com talheres

O passeio com os cachorros

O cedido cobertor quente

O sorriso desavisado

A cumplicidade de um coração valente


Disseram-me que se emocionar doía

Que expectativas não deveriam ser criadas

Ah, mas acho que há beleza na simplicidade

E se eu fosse metade, eu amaria


Não me escondo mais de mim mesma

Nem de qualquer amor

Sento-me a mesa carregada de ausências

De silêncios tão fundos como precipícios

Sendo pouco ou nada

Ao mar iria e te amaria


E um dia escreverão na lápide: Ela amou