O amor dos infelizes
O amor estraga tudo, disseram-me
E eu disse: o amor é a espera do cultivo das lembranças
Somos resultado de tanta gente
Tanta espera
Tanta fantasia inócua
Tantos grandes sonhos
E de nós mesmas
Eu pensava que era frágil e imprestável como as flores
Pensava que todos eram iguais
E descobri que a diferença é coisa das mulheres
E mulheres gostam de flores
E um dia as recebi também
Use-as nos cabelos e sorria
O amor curou as minhas memórias mais sombrias
Apaziguou muitas feridas profundas
E ele passou a me acompanhar
A cada passo que eu dava estava lá
O amor estraga tudo ou é espera?
Encontrei os quase felizes e descobri
Que o amor era um inusitado entusiasmo capaz de mudar o mundo
Me acompanhava e sorria
O amor estava ali, não precisava mais procurar
Era agora uma parte infinita de mim
Não precisava mais curar feridas
Nas flores, nas lágrimas de Deus, nas espadas
No cuidado de um toque de alguém
Que sentia o verdadeiro lado de cá
Desejava e movia-se pela rodovia Sorocabana
E se eu tivesse metade dos olhos
Metade do peito, das pernas
E das palavras para explicar as pessoas
Ainda amaria
Amaria a mesa ajeitada com talheres
O passeio com os cachorros
O cedido cobertor quente
O sorriso desavisado
A cumplicidade de um coração valente
Disseram-me que se emocionar doía
Que expectativas não deveriam ser criadas
Ah, mas acho que há beleza na simplicidade
E se eu fosse metade, eu amaria
Não me escondo mais de mim mesma
Nem de qualquer amor
Sento-me a mesa carregada de ausências
De silêncios tão fundos como precipícios
Sendo pouco ou nada
Ao mar iria e te amaria
E um dia escreverão na lápide: Ela amou